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5 de jan de 2010

Agora sim, Lula: filho do Brasil (Cont.)

Na última postagem acabei deixando de comentar as impressões que tive sobre o filme Lula.
Como seu próprio diretor declarou, o tom procurado foi o de melodrama. Ao escolherem a mãe como fio condutor da trama (mãe sofrida, mas forte - "como todo brasileiro!!!"), ao ressaltarem o romance de Lula e Lourdes regada a um grande som de Tim Maia ("Você"), ao dedicarem diversas cenas à violência paterna, os produtores do filme alcançaram seu objetivo.
Quanto a duração do filme considerei ajustada à proposta, ou seja, justinha, nem mais nem menos.
Assim como Olga (filme melodramático de outro personagem histórico) abusaram da utilização de "closes", efeito semelhante ao usado na TV (sobretudo em novelas). Escolha que se coaduna com o melodrama (expressões de alegria, desespero, tristeza dos personagens são esseciais).
Quanto à grande polêmica: o filme é ou não propaganda política?
Desde o início das produções, o PIG-Direita acusa o tom propagandistico da produção. Já os lulistas e outros grupos de esquerda desmentem qualquer tipo de vinculação com o governo, seja com dinheiro público ou "influência" na obtenção de recursos.
Primeiro: deve-se admitir que o tema LULA na atual conjuntura (altos índices de popularidade do presidente, economia relativamente tranquila,etc) é potencialmente lucrativo. A preocupação com a bilheteria é evidente, tanto que uma corporação muito distante do governo (Globo Filmes) é parceira de Fabio Barreto. A Globo quer lucros.
O diretor/produtores do filme tiveram grande cuidado em não obter dinheiro por meio de leis de incentivo à cultura ( colocaram até um informe de tela inteira no início do filme). Todavia, e isso a imprensa ressaltou, os patrocinadores são as grandes empreiteiras, uma grande cervejaria, uma transnacional de automóveis, uma grande da telefonia (aíaiaí), além de uma gigante da energia e outra do ramo farmacêutico. Ou seja, as grandes CORPORAÇÕES doaram recursos para um filme que trata do PRESIDENTE DA REPÚBLICA. Esta questão é mais imediata e está ligada ao choque de forças políticas que se aproxima.
Considero importante a presença de uma particular leitura sobre trajetória de Lula. As "passagens" da vida do protagonista presentes na película nada mais fazem do que indicar possíveis explicações para os posicionamentos políticos de Lula desde a década de 1970 até hoje!!! O filme é político porque seu tema é político: Lula é Política até a alma!!!! Seu caráter de retirante; a vida sofrida em Santos e em SP (a famosa Vila Carioca dos discursos!!), tudo reafirma o perfil popular de Lula (o pau-de-arara, a catraia, as enchentes, a falta de comida, a vida na favela).
Seguindo outra linha de raciocínio. Lula é filho de dona Lindu, mais também é filho do Brasil. Ou melhor: Dona Lindu é tratada como encarnação do Brasil. Lindu/Brasil explicam a vida sofrida de Lula na infância; explicam a relação do protagonista com o TRABALHO (alías um dos pontos altos do filme é quando Lula entra no SENAi limpo e sai sujo de óleo). Lindu/Brasil afastariam Lula do comodismo reinante entre os trabalhadores; afastariam Lula do Peleguismo corrente do "velho" sindicalismo. Ao mesmo tempo Lindu/Brasil afastariam Lula do ultra-esquedismo representado pelo irmão comunista.
Lula surge como uma terceira via: pragmático (semelhante a Vargas?), afastado da elite golpista/reacionária, livre do ortodoxismo esquerdista e, principalmente, emerge como Mito!!!

A agonia de dona Lindu corre em paralelo ao surgimento do líder sindicalista. Sua morte acontece no mesmo momento em que Lula é preso no DOPS. Passagem que o transformaria no Lula que o conhecemos mais detelhadamente (o fundador do PT, o líder de massas, o eterno candidato a presidente, o que representava o ideal de transformação do Brasil).
A morte de dona Lindu é construida como a morte do velho Brasil. Mesmo morto, o velho Brasil (Brasil verdadeiro, profundo?) estaria presente em Lula em 2003 (daí a lembrança da mãe no primeiro discurso como presidente) na construção de um novo Brasil.

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